Greenlee Collection – Amado, Janaina. Importante Coleção de História Luso-Brasileira na Newberry Library. Revista Estudos Históricos 1 (2001): 253-255.

Gaspar Corrêa. Fold-out map of India, from "Lendas de India," 1858.
Gaspar Corrêa. Fold-out map of India, from "Lendas de India," 1858. Greenlee 4850 .P7 C82 1858.

Janaína Amado
Universidade de Brasília, Brasil
Bolsista na Newberry Library (Andrew Mellon Fellowship, 1999-2000)

Charles Boxer, o grande especialista em história da expansão marítima lusitana, anotou em 1951, acerca da coleção Greenlee, depositada na Newberry Library: “é provavelmente a melhor e mais completa coleção sobre história portuguesa em qualquer biblioteca norte-americana, incluindo a própria Biblioteca do Congresso …. Seria mais simples descrever a riqueza da coleção Greenlee apontando os relativamente poucos livros importantes impressos desde 1800 que não estão nela, do que apresentando uma inevitavelmente incompleta seleção dos que ali se encontram.” (Boxer, Charles. “The Collection”, em The Newberry Library Bulletin, Second Series, no. 6, pp. 169-178). Mais de cinqüenta anos após as palavras de Boxer, contudo, tanto a Newberry Library quanto a coleção Greenlee ainda são muito pouco conhecidas dos estudiosos brasileiros e portugueses. O objetivo desta nota é oferecer informações sobre ambas, em português, por uma historiadora do Brasil que pesquisou durante um ano na instituição.

A trajetória de William B. Greenlee, o formador da coleção, foi curiosa. Membro de uma família de industriais de Chicago, o jovem Greenlee apaixonou-se pela história das navegações oceânicas e da expansão portuguesa quando cursava, em 1893, na Universidade de Cornell, uma disciplina oferecida pelo excelente professor inglês Henry Morse Stephens. Desde então, não mais abandonou a história luso-brasileira, que se tornaria a paixão de sua vida. Ao retornar a Chicago e aos negócios da família - uma fábrica de máquinas, durante o boom da industrialização da cidade -, Greenlee iniciou sua coleção de livros, periódicos e documentos sobre a expansão lusitana. Ao mesmo tempo, reforçou a própria formação, estudando na excelente coleção Ayer - dedicada aos primeiros contatos entre europeus e nativos na América, com o objetivo de facilitar o conhecimento sobre os indígenas e o melhor relacionamento com eles -, que o colecionador Edward Ayer então pacientemente reunia na Newberry Library, a biblioteca privada de Chicago que começava a se projetar como uma das melhores do país. Greenlee passou a freqüentar assiduamente essa biblioteca, para onde transferiu, em 1937, a sua coleção; tornou-se um dos beneméritos da instituição e, durante anos, membro de seu conselho diretor.

Após aposentar-se dos negócios da família, Greenlee dedicou-se integralmente à sua coleção sobre história luso-brasileira, viajando por países da Europa para adquirir livros e documentos raros. Em 1938, com base nos documentos de sua coleção, Greenlee publicou um importante livro que, embora de excepcional interesse para os brasileiros, ainda não foi publicado no Brasil: The voyage of Pedro Álvares Cabral to Brazil and India (Hakluyit Society, Londres; há uma tradução portuguesa, de António Álvaro Dória, publicada na cidade do Porto, Livraria Civilização Editora, 1951). Até hoje, o volume constitui a melhor e mais completa coletânea comentada de documentos a respeito da viagem de Pedro Álvares Cabral em 1500, incluindo várias fontes italianas raras, até então inéditas e extremamente reveladoras das reações das cidades-Estado da península itálica acerca das viagens oceânicas portuguesas, que tão profundamente as afetou. Greenlee publicou também alguns artigos, todos de interesse para a história colonial do Brasil. A convite, integrou, como membro efetivo ou correspondente, algumas importantes instituições de pesquisa, como a Sociedade de Geografia de Lisboa, a Royal Geographic Society (Inglaterra), a American Geographic Society e o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Ao falecer, em 1953, William B. Greenlee construíra uma das mais importantes coleções existentes nos Estados Unidos sobre a história de Portugal e das ex-colônias portuguesas, com ênfase especial para o Brasil colonial. Greenlee ainda deixou uma generosa doação à Newberry, o que permitiu à biblioteca continuar adquirindo documentos e livros para a sua coleção.

Como Boxer escreveu, o objetivo da coleção Greenlee não é tanto o de reunir primeiras edições e livros raríssimos, mas o de constituir, para os especialistas, um poderoso e normalmente disperso acervo sobre a história da expansão lusitana e das ex-colônias portuguesas. Para o estudioso brasileiro, tão carente no Brasil de bibliotecas e mesmo de obras especializadas sobre a história da expansão portuguesa, a coleção Greenlee é uma verdadeira preciosidade, que merece ser melhor explorada. Além de fornecer informações sobre dezenas de temas específicos, ela permite realizar algo praticamente impossível no Brasil: relacionar nossa história à do conjunto dos espaços portugueses no mundo.

Na coleção Greenlee existem praticamente todos os clássicos da história da expansão portuguesa, publicados tanto em Portugal como nas ex-colônias; coleções completas de documentos, tais como a Portugaliae monumenta historica, dirigida por Alexandre Herculano e J.J. da Silva Mendes Leal, Alguns documentos do Archivo Nacional da Torre do Tombo acerca das navegações e conquistas portuguesas,, publicada em 1892, o Archivo dos Açores, editado de 1878 a 1901, ou a Collecção dos tratados, convenções, contratos e actos públicos celebrados entre a coroa de Portugal e as mais potência desde 1640 até ao presente (1921), entre numerosíssimas outras; manuscritos avulsos, muitos deles originais e inéditos, relativos aos mais diferentes aspectos das colonizações lusitanas no mundo (Goa, Japão, Macau, Timor, Moçambique, Angola, etc.), inclusive sobre regiões específicas do Brasil colonial; volumes especializados em genealogia, como a monumental História genealógica da casa real portuguesa desde a sua origem até o presente (1749), organizada por António Caetano de Sousa; livros, coleções e documentos de interesse para a história da expansão portuguesa, editados a partir do século XV em outros países, como Holanda, Itália, Alemanha, etc., alguns das quais inexistentes nas bibliotecas e arquivos portugueses, como I Diarii di Girolamo Priuli, publicados em Bolonha, na coleção Rerum italicarum scriptores; coleções cartográficas, atlas e mapas de incomensurável valor, como o original do magnífico atlas do império português produzido pelo cartógrafo Sebastião Lopes no final do século XVI ou a ainda muito útil Portugaliae monumenta cartographica, organizada por Armando Cortesão e Avelino Teixeira da Mota; livros raros de viajantes, em várias edições, que podem ser comparadas entre si; e um bom acervo de obras de literatura em língua portuguesa, publicadas a partir do século XV. A coleção Greenlee encontra-se integralmente catalogada, existindo também guias impressos sobre toda ela e sobre setores dela. O único aspecto a lamentar na coleção é a sua desatualização relativamente a obras recentes, já que muitos e importantes livros publicados a partir de 1960 sobre aspectos da história da expansão portuguesa não são encontrados lá.

Além da Greenlee, a Newberry Library possui outras coleções de documentos e livros de interesse para o pesquisador da história luso-brasileira. Entre elas, destacam-se o magnífico acervo cartográfico, considerado dos melhores do mundo, e a preciosa coleção Ayer, relativa aos primeiros contatos entre europeus e nativos, inclusive em território hoje brasileiro. A Newberry é ainda muito procurada por suas coleções especializadas em história do oeste americano, história da imprensa e genealogia. O período em que se concentra a maioria de suas coleções vai do início do séculos XV ao final do XVIII.

A Newberry Library oferece anualmente algumas bolsas de estudos a especialistas que desejam pesquisar em suas coleções, sendo essa uma oportunidade rara para os pesquisadores das várias faces e lugares da história do imenso império português.